Fechamos o dia ontem com uma conversa sobre como ter prazer nas coisas do cotidiano. Si Fu destacou o pensamento hedonista que, ao contrário do conhecimento comum de uma busca por excessos, buscava ter o máximo de prazer ao aproveitar as pequenas coisas da vida.
Lembrei-me de Epicuro, que dava aulas em jardins e compartilhava pão e água com os discípulos, mesmo para a época considerados simples:
“O anfitrião deste lugar, onde se encontrará o prazer do sumo bem, te oferecerá livremente bolos de cevada e água fresca. Este jardim não irá provocar teu apetite com iguarias artísticas, mas vai satisfazê-lo com os presentes da natureza. Não serás feliz assim?”
Sempre me atraí por essa ideia de momentos simples em que os aspectos da vida podem ser abordados livremente. Mais do que discutir a vida em abstrato, trata-se de vivê-la de acordo com seus próprios valores, aplicando na prática o que se ensina, inclusive ao aprender em si.
No caso ali, aproveitamos um belo “sorvete da madrugada” para adentrar em temas mais caudalosos. Ao fim, estávamos discutindo se o narrador de um vídeo que assistíamos seria ou não uma IA, sem conseguir chegar a nenhuma decisão devido ao olhar reptiliano do rapaz.
Na manhã seguinte, fizemos a nossa primeira caminhada dessa imersão, apresentando o condomínio ao Antonio Henrique. Destacamos o quanto estava diferente: nas imersões e visitas anteriores, pode-se ver as fotos ainda no escuro; hoje, o sol já havia nascido, mudando totalmente a iluminação; a grama estava mais fofa, mudando o toque; o ar mais quente... Um dia único se iniciava, mas todos os dias não são assim? Nem preciso entrar em Parmênides aqui.
Fomos, ainda, ao Panera Bread para um grande café da manhã que me deixaria sem fome o dia todo. No almoço, os assuntos se desenrolavam naturalmente; acabamos falando de política e, por fim, de cinema.
Si Fu perguntou a cada um sobre filmes de inspiração. Ele falou da série “Ripley”, Antunes de “Um Sonho de Liberdade”, e eu, depois de hesitar, mencionei “Gattaca”. Si Fu comentou gostar de séries pelo tempo de desenvolvimento dos personagens. Eu defendi os filmes pela brevidade, por terem menos rodeios, e terminei citando “Gumball”, um desenho animado, como ápice desse estilo.
Certa vez, em uma entrevista sobre Annie Ernaux, comparava-se a escrita ao boxe: um romance, por sua extensão, permite vitórias graduais, por pontos, conquistando o leitor aos poucos, construindo nuances, conduzindo-o até o fim. Um conto, por outro lado, exige impacto imediato, como um nocaute; precisa ser direto, fulminante, marcar o leitor com força em um único golpe.
Ernaux ganhou o Nobel com seus contos por ter levado ao ápice essa escrita precisa e objetiva, transmitindo vivências, condensando tensões e significados em poucas páginas. Vários contos dela seriam bons nocautes.
Ainda trabalharíamos à tarde com o Antonio, focados no Ving Tsun, até que o Si Fu chegasse para arrematar o trabalho e nos embrenharíamos em uma conversa sobre estratégias no futebol, futebol americano e beisebol, que deixamos para outro momento devido à extensão deste texto.
Até a próxima.
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Thiago Silva
梅 知 友 士
Moy Chi Yau Si